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“Todos têm a ganhar com a chegada de pessoas com deficiência ao CEFET-MG”

Mon Mar 20 13:43:00 BRT 2017

Adriana Venuto, coordenadora do Napne, fala sobre os desafios no ensino de alunos com necessidades específicas

No final de 2016, o governo federal sancionou a Lei nº 13.409 , que dispõe sobre a reserva de vagas para pessoas com deficiência nos cursos técnicos de nível médio e superior das instituições federais de ensino. A nova lei altera a de nº 12.711, a chamada Lei de Cotas, que prevê que pessoas autodeclaradas pretas, pardas e indígenas têm direito à reserva de vagas, proporcional à população desses grupos nos estados brasileiros, além de cotas para estudantes de escolas públicas e oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo.

Com a mudança, a expectativa é que as instituições de ensino tenham que se adaptar para receber seus novos estudantes. Para entender os desafios no ensino de pessoas com deficiência, conversamos com a professora da Unidade Contagem, Adriana Venuto. Adriana é doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora do Núcleo de Atendimento a Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNE), grupo da Coordenação Geral de Relações Étnico-Raciais, Inclusão e Diversidades (CGRID) do CEFET-MG.

O que as mudanças provocadas pela Lei nº 13.409/2016 representam no acesso das pessoas com deficiência à educação?

A lei traz uma certa tranquilidade para o aluno com deficiência. Ao concorrer em um processo seletivo, ele pode se preparar sabendo que haverá um atendimento especial na realização da prova. Ele pode saber que a instituição de certa forma o espera, já que a reserva de vagas pressupõe que há uma grande chance de que um candidato com algum tipo de especificidade entre na Instituição.

Isso é algo que tenho conversado com nossos alunos do CEFET-MG. Muitas vezes, o aluno com especificidades educacionais não concorre com igualdade quando não há cota. Pode ser um aluno cuja interpretação de texto seja um pouco diferente da de um aluno que não tenha deficiência, ou um aluno com baixa visão... Sem a obrigação das instituições de ensino se adaptarem, esse aluno ainda não concorre em pé de igualdade.

Quais são os maiores dificultadores atualmente para a inserção das pessoas com deficiência na educação?

A dificuldade está em quase todos os níveis: começa já na acessibilidade arquitetônica – no CEFET-MG, as Unidades mais antigas ainda não estão completamente adaptadas para alunos com deficiência. Eu tenho visitado muitas delas unidades e a gente tem observado que pequenas alterações arquitetônicas precisam ser feitas, às vezes emergencialmente, para atender um aluno com deficiência que chega.

Do ponto de vista da relação com o processo de aprendizado em si, em sala de aula, temos observado uma questão cultural: o professor tem uma certa reserva em lidar com esse aluno. Ele tem uma dificuldade de enxergar como ele vai desenvolver o seu trabalho pedagógico, uma vez que muitos desses professores estão recebendo pela primeira vez um aluno cego, ou um aluno autista, por exemplo. A maioria de nós nunca foi treinada para lidar em sala de aula com alunos que tenham alguma especificidade e algumas questões passam despercebidas. Por exemplo, um aluno surdo com uma intérprete em sala de aula precisa de um professor cuja exposição seja um pouco mais lenta. Um aluno com deficiência visual precisa que a letra no quadro ou no material impresso e digital seja ampliada. É difícil receber esse aluno, mas é perfeitamente possível recebê-lo e recebê-lo bem.

Segundo dados da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação, em Minas Gerais, 66% dos estudantes com deficiência estão matriculados em turmas regulares na educação básica. Qual a importância da inclusão desses alunos em turmas comuns?

O benefício é duplo: tanto para o aluno com deficiência quanto para as instituições de ensino. O estudante está ali no exercício da sua cidadania: ele também tem direito ao espaço como qualquer cidadão, ainda mais no nosso caso, que somos uma instituição pública. Para as pessoas com deficiência, são vários os benefícios, começando pelo desenvolvimento das relações sociais e das relações afetivas. Vemos que a família desse aluno tem uma relação muito diferenciada com a instituição e estão muito felizes com a inserção do aluno. Eles também estão muitas vezes aprendendo a lidar com esse ambiente novo, que não é completamente adaptado sob todos os pontos de vista para os filhos deles – mães e pais chegam até nós muito preocupados, mas aqui vêem que esse menino amadurece. É uma criança que cresceu em condições especiais e agora é um adolescente, um adulto que está enfrentando outro tipo de situação. Além do crescimento intelectual, de cognição, de formação profissional, existe uma maior autonomia, principalmente para os que entram no ensino médio integrado. As famílias dizem que isso tem muito a ver com o fato de eles estarem em salas de aulas regulares.

E nós ganhamos – professores, comunidade do CEFET-MG, colegas de sala – porque aprendemos a conviver com o diverso, e isso é o mais importante. Nós temos alunos que nunca tiveram a oportunidade de conviver com uma pessoa com deficiência. Esses alunos aprendem com essa pessoa; aprendem que são como qualquer outro colega de sala. Todos ganham com a chegada desses alunos no CEFET-MG.

Como o Núcleo de Atendimento a Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNE) atua no CEFET-MG? De que maneiras as pessoas com deficiência são inseridas na comunidade acadêmica?

O NAPNE é um núcleo que faz essa ponte entre as famílias, o aluno e a comunidade cefetiana. A atuação é de forma muito pontual, caso a caso. Neste semestre, por exemplo, já nos reunimos com as famílias dos alunos que chegaram ao ensino técnico e nos reunimos com professores, para orientar as condutas básicas com relação a esses alunos. Temos alunos com baixa visão, com Síndrome de Asperger, alunos com baixa audição... Cada um apresenta novos desafios.

Quais os desafios que o CEFET-MG ainda enfrenta na inclusão das pessoas com deficiência?

O CEFET-MG tem desafios nos cursos técnicos que vão muito além dos desafios do ensino médio tradicional. O CEFET-MG prepara as pessoas para o mercado de trabalho. Isso implica que a preparação tem que ser pensada para que esse aluno com deficiência, qualquer que seja ela, tenha condições efetivas do exercício profissional.

Cada aluno traz desafios específicos para os cursos em que eles estão inseridos. Temos, por exemplo, que repensar de que maneira os conteúdos – principalmente aulas de laboratório – serão adaptadas para alunos com deficiência visual e auditiva. É um desafio que se coloca diariamente para o professor da disciplina.

Como nossa formação é profissional e técnico-científica, temos diferenças no processo de aprendizado. Nossos desafios são muito grandes justamente porque temos que pensar nesse aluno para além dos muros da escola: como ele estará na sociedade e no mercado de trabalho?

Secretaria de Comunicação Social / CEFET-MG

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